AUTISMO
E NOSSAS EMOÇÕES
Poucos
distúrbios ou doenças causam mais perplexidade,
confusão, ansiedade e incomodam o ser humano que os
psiquiátricos. Qualquer doença tem o seu sofrimento,
estigma ou preconceito social porém umas mais do que
as outras. Existe inclusive um movimento de mudança
entre elas. A tuberculose já foi motivo de vergonha
e terror entre uma família, mas hoje em dia não
causa mais isto, por ser altamente tratável. A lepra
não teve este êxito e a sociedade ainda a estigmatiza.
A sífilis e outras doenças transmissíveis
apesar de tratáveis geram escárnio, pois têm
a ver com sexo, um outro tabu. Outras doenças parecem
dar até “status”, como o infarto ou a úlcera
gástrica, e são relacionadas a pessoas dinâmicas,
ativas, do “tipo executivo” que, devido a tantas
e importantes decisões, não resistiram ao “stress”.
O câncer, que ao mesmo tempo atemoriza
e intriga, está em destaque. Fala-se em novas fronteiras,
sendo que para alguns tipos já se descobriu a cura.
A esperança é um fato concreto.
Mas dos males do ser humano, nenhum se defronta com tanto
preconceito e estigma, tanta desinformação,
fantasia e absurdos como as doenças ditas psiquiátricas.
Chega-se inclusive ao extremo de questionar
se certas patologias, como a esquizofrenia, seriam realmente
uma doença ou apenas uma nova forma adaptativa de vida.
Ou seja, uma variação normal, em uma sociedade
doente.
Esta situação agrava-se ainda mais pelo fato
das doenças psiquiátricas serem as mais negadas,
inclusive pela própria comunidade médica. Identifica-se
uma úlcera, diagnostica-se uma pneumonia, mas o suicídio
não passa de um “acidente”. Em conclusão,
doenças psiquiátricas ou comportamentais são
reconhecidas e diagnosticadas com enorme dificuldade. Não
que sejam de difícil identificação, mas
elas “mexem” e nos obrigam a questionar áreas
muito delicadas e sensíveis do ser humano, ou seja,
o nosso próprio comportamento.
E delas, a meu ver, a mais trágica,
a que causa maior perplexidade e gera o maior tumulto emocional
é o autismo.
Essa perplexidade confunde e pode alterar
a objetividade científica do profissional. Vai sem
dúvida, abalar profundamente o funcionamento emocional
dos pais e familiares das crianças portadoras. É
impossível permanecer indiferente ou cientificamente
neutro, daí não se formar uma opinião
ou parecer único perante o autismo. Eles simplesmente
“incomodam, confundem, doem e intrigam” os profissionais.
Os pais vivenciam esses filhos não só como tragédia,
mas como se o filho fosse objeto, sem calor humano. “Não
me quer, não me procura”, dizem os pais.
Sei que a minha opinião pessoal terá,
sozinha, pouco valor científico ou estatístico,
mas de todas as doenças com que me deparei enquanto
fazia pediatria, por mais enigmática que fosse, nenhuma
me desconcertou mais do que o autismo. Perante ele qualquer
pessoa fica perplexa e se sente impotente.
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